escrever e apagar
Quantas vezes escrevi e apaguei?
Lembro-me de dever um pedido de desculpas a muitas pessoas. Não gosto de ficar a dever nada a ninguém, a minha mãe ensinou-me que é feio. No entanto, devo. A ti, em primeiro lugar, que estás a perder precioso tempo da tua vida com estas palavras ingratas e pouco percetíveis, devo-te um pedido de desculpas.
Lembro-me de ser feliz. Não sei se é uma afirmação passível de ser feita. Mas fui feliz. Dava-te a mão, mãe. E pai. E era feliz. Lembro-me de correr e sentir a areia da praia a bater nas pernas. Magoava. Mas era tão feliz! Construí tantos castelos, tantos túneis e pontes. Nunca imaginei que fossem mesmo isso. Castelos na areia. Só porque era tão feliz. Mas ainda aí, devo um pedido de desculpas.
Lembro-me bem de viver a tolice da juventude. Lembro-me de me chatear. De gritar. De dar murros na parede. De te dizer coisas tão feias, mãe. E pai. E tanta gente. Não quero lembrar-me mais. Devo tantos pedidos de desculpa.…
Lembro-me de te amar com corpo e alma. De te dar tudo o que tinha e o que não tinha, inventava. Lembro-me do cheiro da tua camisola, desgastada pelo tempo e noitadas. Lembro-me do cheiro a tabaco e do sabor na tua boca. Era forte. Foi tão forte. Mas já não me lembro de ti, de quem eras. Secalhar não eras nada. Lembro-me tão bem de te odiar. Nem posso verbalizar o quanto te odiei. E no entanto, devo-te um pedido de desculpas.
Lembro-me de ser infeliz. Não sei se é uma afirmação passível de ser feita.. Mas fui infeliz. Lembro-me de querer fugir. Lembro-me de fugir. Chovia tanto nesse dia.. Lembro-me de chorar. Às vezes chora-se de tristeza, nem sempre é de alegria (quem me dera que as pessoas usassem esta frase em vez do inverso). Lembro-me da solidão, no meio de tantas pessoas. Mesmo assim, devo pedidos de desculpa.
Desculpem-me.
Joana Barroco
http://sa--node.blogspot.pt/
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