Houve um tempo em que a dor era a medida,
Um mapa em carne viva, sem fronteira.
E a alma era uma frágil, triste guarida
Para a lágrima que em turva nascente bebera.
Mas a semente que dormia no segredo
Da terra revolvida, escura e fria,
Não permitiu que o corpo fosse o medo,
E nem que a noite eterna fosse o dia.
O que me feriu não foi só o que doeu,
Foi também a argila que endureceu.
Foi a fibra tecida no silêncio, lento,
Que vestiu o vazio do meu tormento.
Não nego a ferida, não finjo que se foi.
Ela é a linha de força que me constrói.
É o relevo exato onde o novo aprende a ficar,
Onde a dor, já vencida, ensina a voar.
E a força, então, não é mais a ausência do que dói,
É a capacidade de seguir, ainda que te corroi.
É saber que a alma, após a tempestade,
Brilha, não apesar da dor, mas com a sua verdade.
Hoje, se me perguntas qual o meu alicerce,
Digo que é o lugar onde a tristeza fenece,
Onde o grito se torna canto, firme e profundo,
Onde o poema é mais forte que a dor de todo o mundo.

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