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quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Cicatriz e Voo







 Houve um tempo em que a dor era a medida,

Um mapa em carne viva, sem fronteira.

E a alma era uma frágil, triste guarida

Para a lágrima que em turva nascente bebera.

Mas a semente que dormia no segredo

Da terra revolvida, escura e fria,

Não permitiu que o corpo fosse o medo,

E nem que a noite eterna fosse o dia.

O que me feriu não foi só o que doeu,

Foi também a argila que endureceu.

Foi a fibra tecida no silêncio, lento,

Que vestiu o vazio do meu tormento.

Não nego a ferida, não finjo que se foi.

Ela é a linha de força que me constrói.

É o relevo exato onde o novo aprende a ficar,

Onde a dor, já vencida, ensina a voar.

E a força, então, não é mais a ausência do que dói,

É a capacidade de seguir, ainda que te corroi.

É saber que a alma, após a tempestade,

Brilha, não apesar da dor, mas com a sua verdade.

Hoje, se me perguntas qual o meu alicerce,

Digo que é o lugar onde a tristeza fenece,

Onde o grito se torna canto, firme e profundo,

Onde o poema é mais forte que a dor de todo o mundo.


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